
Onde está escondida a força que é inata no homem? Ela voa, não consigo apanhá-la. Não poder soa mal. Como fugir? Quando as casas e os prédios que construí no meu pensamento começam a ruir, deixo escapar até a ultima esperança. A última esperança abandona-me, pois sente-se sozinha. Fico negra. A ave negra que me assombra com o seu rasgar de asa, dança, mole. Batem três vezes à minha porta. A espera é longa quando o ar é cortado. Onde fugir? Porque não colher então as nuvens que esperam ser abatidas pelo vento feroz? Se tudo está aqui para morrer, porque soltamos gritos de alegria? Porque nos parece melhor andar pelo caminho largo? Os desvios serão então maiores. O transtorno leva-me a sentir fulgor.
Nas ruas da primavera, as árvores sopram as suas flores para a minha cara. Elas envolvem a minha respiração. O pó da maravilha abre o meu olhar. Porque não descer escada a escada? Onde corres agora? Para algum sítio perto do mar? As ondas tristes fazem escadas de espuma. A ave negra aparece com a sua nuvem de chuva. Viver dá sede. A chuva é precisa. Precisas de levar tudo o que não é teu contigo? Não... Se nada é teu, onde pensas esconder tudo? O tudo se transformará em pó translúcido. Entrará nos teus olhos, cegando-te. O teu sopro se transformará em veneno.
Abençoado aquele que olha o sol do inverno com olhos de amor e não apenas o de verão. Quando a noite chega, recolhe os pedaços de alma que espalhou. Pelas sombras, pelos telhados, pelas ruas sem fim, pelos campos húmidos e frios, pelos vales secos e acobreados. A pedra derrete com o olhar do sol. Todos fechamos os olhos à sua luz, procurando caminhos que dele nos afastem.
Nas ruas da esperança desesperada, quando a única coisa que esperas é a minha chegada, virei ao teu encontro. Abraçarei o teu jeito suave, beijarei a vida que há
Queres saber o que vou dizer aos ventos que perguntarem por ti? Eles conhecem-te, pois muitas vezes te trouxeram perto de mim, sem que tu soubesses. Direi que partiste, de manhã cedo, quando os céus ensonados não te viram. Por isso não sei onde estás. Será esse o meu consolo, a minha mentira. Todos temos mentiras que nos parecem pequenas, mas elas cobrem a nossa luz.
Retorno para o meu escombro sossegada, inútil. Vagueio. Que beleza vês em mim? Aquela que se sente? Ou será aquela que escondo para que não a vejas? Ela culmina apenas junto a ti, mas tu não o sabes. Um dia encontrarás escrito na tábua do meu coração, que a dor me fez negar a felicidade. O que estará escrito na tua tábua? Guia a minha mão para o teu coração. Só assim te poderei ver. Cada batida, cada pestanejar vagaroso, dir-me-á o que está escrito no teu coração. Conhecerei a causa do teu sorriso, a razão dos teus sonhos, o cansaço de viver.
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